Alfredo Moreira Filho

Valores em família: O que as tarefas de casa ensinam?

Nami Takasori
Por Nami Takasori 5 Min de leitura

Muitas famílias poupam os filhos das tarefas domésticas na intenção de protegê-los ou de liberar tempo para os estudos. Segundo Alfredo Moreira Filho, empresário cuja família se fundamenta em valores éticos e morais, essa escolha bem-intencionada pode produzir o efeito contrário, porque é nas pequenas responsabilidades do dia a dia que a criança começa a entender o que significa contribuir com o grupo do qual faz parte.

Arrumar a cama, pôr a mesa ou cuidar do próprio material parecem gestos simples demais para ensinar algo importante. A psicologia e a pesquisa sobre desenvolvimento infantil, no entanto, mostram uma relação consistente entre essas obrigações e a formação de valores como responsabilidade, cooperação e respeito. Confira as respostas para as dúvidas mais comuns sobre o tema.

Por que dividir tarefas ajuda a formar valores?

Quando participa das atividades da casa, a criança deixa de ser apenas alguém que recebe cuidados e passa a ser alguém que também cuida. Essa mudança de posição é decisiva. Ela aprende, na prática, que o conforto de todos depende do esforço de cada um, e que suas ações têm consequências para quem vive ao redor.

Há ainda um aprendizado sobre compromisso. Uma tarefa assumida e não cumprida afeta a rotina da família, e a criança percebe isso de forma concreta, sem precisar de sermões. Alfredo Moreira Filho entende que valores como responsabilidade e respeito ganham sentido justamente quando deixam de ser conceitos e se transformam em hábitos repetidos todos os dias.

O que a pesquisa diz sobre isso?

Um dos estudos mais citados sobre o tema foi conduzido pela pesquisadora Marty Rossmann, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos. Ao acompanhar participantes desde a infância, ela observou que aqueles que começaram a ajudar em casa ainda pequenos tinham mais chances de construir boas relações e carreiras sólidas na vida adulta.

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Outra referência é o Estudo de Desenvolvimento Adulto da Universidade Harvard, uma das pesquisas mais longas já realizadas sobre a vida humana. Entre suas conclusões, o psiquiatra George Vaillant destacou que a disposição para o trabalho na infância, incluindo tarefas domésticas, estava associada a melhor saúde emocional e a relações mais estáveis décadas depois. Esses resultados, frisa Alfredo Moreira, reforçam o que muitas famílias do campo sempre souberam por experiência própria.

A partir de que idade começar?

Especialistas em desenvolvimento infantil recomendam começar cedo, adaptando a tarefa à idade. Crianças pequenas podem guardar brinquedos ou levar a roupa suja ao cesto. Mais adiante, podem ajudar a pôr a mesa, regar plantas ou alimentar um animal de estimação. Na adolescência, assumem responsabilidades maiores, como preparar uma refeição simples ou cuidar de um irmão mais novo por algumas horas.

O mais importante é a regularidade. Uma tarefa feita só de vez em quando, sob insistência, perde o caráter educativo. Quando faz parte da rotina, ela deixa de ser um castigo e passa a ser uma contribuição natural. Na visão de Alfredo Moreira Filho, essa constância é o que transforma uma obrigação em traço de caráter.

Pagar pelas tarefas é uma boa ideia?

Esse é um dos pontos que mais dividem os pais. Remunerar cada atividade pode ensinar algo útil sobre trabalho e dinheiro, mas também passa uma mensagem arriscada: a de que só vale a pena ajudar quando há recompensa. A criança pode começar a negociar preço para tarefas que, na verdade, fazem parte da convivência familiar.

Uma alternativa adotada por muitas famílias é separar as duas coisas. As tarefas básicas da casa são de todos e não envolvem pagamento, enquanto atividades extras podem render uma pequena quantia, ajudando a criança a entender a relação entre esforço e ganho. Para Alfredo Moreira, o essencial é que os adultos deem o exemplo, porque nenhuma regra se sustenta se quem a estabelece não participa do trabalho que pede aos filhos.

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