Haroldo Augusto Filho

O fim de uma parceria também se negocia, lembra Haroldo Augusto Filho

Nami Takasori
Por Nami Takasori 5 Min de leitura

Encerrar uma parceria comercial raramente recebe o cuidado dedicado a iniciá-la, e Haroldo Augusto Filho, da Fource Consultoria, com atuação em negociação empresarial e ambientes corporativos complexos, observa que essa assimetria custa caro. Fornecedores, distribuidores e sócios de projetos voltam a se cruzar no mercado, e a forma como uma relação termina define se haverá uma próxima.

A saída negociada é o nome dado ao encerramento planejado em conjunto, com prazos, responsabilidades e comunicação definidos pelas duas partes. Ela se opõe ao rompimento abrupto, decidido de um lado só. Acompanhe a seguir como esse processo funciona e por que ele protege mais do que a relação.

Por que o rompimento abrupto sai mais caro?

Uma indústria decide trocar de distribuidor em uma região e comunica a decisão por e-mail, com trinta dias de prazo. O distribuidor, surpreso, suspende entregas pendentes, retém informações de clientes e passa a oferecer a concorrentes o conhecimento que acumulou sobre o mercado local. A troca, planejada para reduzir custos, acaba por gerar perdas.

O rompimento abrupto transfere ao parceiro todo o custo da transição e, com ele, todos os motivos para dificultá-la. Mesmo uma decisão comercialmente correta pode perder o ganho esperado na execução. Nesse ponto, Haroldo Augusto Filho aponta que o erro mais frequente não é a decisão de encerrar, e sim a pressa em comunicá-la.

Os elementos de uma saída negociada

Uma saída negociada combina quatro elementos. O primeiro é um prazo de transição compatível com o tempo de que o parceiro precisa para se reorganizar. O segundo é a divisão clara de responsabilidades nesse período, das entregas pendentes ao atendimento de clientes. O terceiro é o tratamento de estoques, dados e materiais compartilhados.

O quarto elemento, e o mais negligenciado, é o acordo sobre a comunicação: o que será dito a clientes, fornecedores e equipes, por quem e em que momento. Quando cada empresa conta sua própria versão, o mercado ouve duas histórias e tende a acreditar na pior. Uma narrativa comum protege a reputação dos dois lados.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Como comunicar a decisão ao parceiro?

Haroldo Augusto Filho descreve a primeira conversa como o momento que define todo o processo. Ela deve acontecer pessoalmente ou por vídeo, antes de qualquer rumor, e com a decisão já tomada, mas com os detalhes da transição ainda abertos. O parceiro recebe uma notícia difícil e, ao mesmo tempo, um espaço real para negociar.

Essa combinação evita dois erros opostos. Apresentar o encerramento como hipótese, quando ele já está decidido, gera falsas esperanças e desgaste nas semanas seguintes. Chegar com tudo definido, sem margem para ajustes, transforma a conversa em comunicado e empurra o parceiro para a defesa. Firmeza sobre o fim e flexibilidade sobre o caminho são compatíveis.

Equipes e clientes em comum durante a transição

Nenhum encerramento acontece só entre as diretorias. Nas duas empresas, há pessoas que trabalharam juntas por anos, conhecem os processos de ambos os lados e mantêm contato com os mesmos clientes. Se elas souberem da decisão por terceiros, a transição perde aliados justamente entre quem mais poderia facilitá-la.

Os clientes compartilhados merecem atenção específica. Um cliente que recebia produto de uma empresa e atendimento da outra precisa saber, com antecedência, quem responderá por cada etapa a partir de quando. Informado em conjunto pelas duas partes, ele enxerga organização; informado de forma desencontrada, enxerga instabilidade e começa a procurar alternativas.

Um encerramento que deixa portas abertas

Mercados especializados são menores do que parecem. O distribuidor dispensado hoje pode ser o parceiro necessário em outra região daqui a alguns anos, e o fornecedor substituído pode voltar a ser a melhor opção quando o cenário mudar. A forma como a relação terminou será lembrada em cada uma dessas conversas.

Por isso, o encerramento merece ser tratado como a última etapa da parceria, e não como sua negação. Sob essa ótica, Haroldo Augusto Filho avalia que empresas lembradas por saber terminar bem encontram disposição onde outras encontram resistência. Uma boa saída é, no fim, um investimento no próximo começo.

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